quinta-feira, 16 de outubro de 2014

POEMA





POEMA







como apareces, planície
entre o linho e o azul deserto
a praia se abre em palácio
na glória de tuas sedas
no teu sorriso de ledas
e severidades deusas
nos olhos de mil portas
(mas apenas te vi: na verdade
eras efemeridade)

Rogel Samuel

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

FOI NUMA NOITE DE AGOSTO

  


 foi numa noite de agosto  
      que apareceu a tal lua  
      os lábios naquela água  
      o corpo dado aos amantes  
      amantes não sabem nada  
      que há tempos não se via  
      a gargalhada menina  
      da lua de rica rima  
      poetas que não se fiem  
      poetas nada sabem   
      que é até mesmo uma pena  
      que esta caneta tão prima  
      não seja feita mais fina  
      como ponta de punhal

quarta-feira, 23 de julho de 2014

JARDIM ANTIGO





jardim antigo



um fato aconteceu
no silêncio das flores do jardim abandonado
entre os arbustos
e folhas secas

aumentaram as cores
a vivacidade variada
libertaram
não sabem a nenhum
germinam grandes entre pedaços de
estatuária
debaixo de pedras
dentro dos tanques surdos

somente perdidos anjos
e o cão preto
aquelas aves desgarradas
aquelas murtas velhas
não a vêem

à noite um lagarto verde
entre as estrelas azuis

as flores dormem

as flores há muito tempo lá estavam
elas dormem

segunda-feira, 7 de julho de 2014

despertar paredes brancas

despertar paredes brancas
despertar paredes brancas, despertar
brancas folhas de papel dormentes
desviar o curso de um regato na encosta
da floresta que canta a sua canção de vento
entornar um pouco desse copo automático
funcionar minhas molas de rascunho pressionadas
retomar o fio da leitura interrompida
iludir o tempo de marcar esta postagem

sábado, 5 de julho de 2014

Noite negra


Noite negra
Noite. Noite negra, nessa montanha.
Negra noite
Unidos pelo mesmo hálito,
o mesmo manto sem estrelas.
Nesse mundo, onde estamos nós?
Nessa noite negra. Tão negra
que deixamos acesa aquela luz.
Entre nós. Nossas luzes.
Negra noite.

CALIFORNIANO















CALIFORNIANO


No ponto Sul o vôo vem no mel
Boeing com seu som martelo ponto certo
Quem me espera? porque vem
o mais tarde amor
corta no ar do meu voto
caio nas suas cores
saio das suas plumas
chego.

terça-feira, 1 de julho de 2014

uns poemas

uns poemas
 
tecíamos quando falávamos
uníamos teias de reflexões
como aranhas mútuas de linguagem
uníamos costuramos sobre a mesa
cosemos, ponto por ponto, as bordas de uma
estrutura, de uma costura,
bordados sobre o meu ar
"e o cavalo na montanha"
 
 
 

Não quero rever o segredo


   Não quero rever o segredo
      o teu copo de mar
      nem a horta colher a medo
      por quem a imitação da forma
      é a porta por entrar
      a costura da imagem
      da pele mais quente amar
      que fria ou quente acessórios
      são para o tom certo aplainar
      ou a tonalidade vazia
      que nada sabe o enredo
      em que  quero aprisionar
      e por onde passa o espelho
      lançado sobre o luar
      oriunda onda onde queres
      neste oceano me levar?
  (17/outubro/99)
 



 

Não posso reter os teus traços


Não posso reter os teus traços

Nem as notas de teu tema

Pois tua música se desvanece

Como as vozes do poema

Da paixão, que mais um traço

Foi do azul de minha pena,

E quando eu te vir já será garço

Repique fraco a tua cena

O afastado abraço

oriunda onda a que cerca de aço

Me levarão essas algemas?

              

     

chuva na cidade

chuva na cidade
 
rogel samuel
 
porteiros lavam as calçadas
ou varrem para o meio-fio
 
viúvas saem a passear com o cão
andando devagar
 
homens de terno tiram os carros das garagens
deixando dormindo suas esposas
que sonham com os amantes
 
há uma brisa fresca neste fim de verão
o dia nublado
 
 

e eu bebo veneno pelos olhos

e eu bebo veneno pelos olhos
quando vejo a tua forma de partir
que ela se torna numa larva negra
espuma do mar fervente em cada mão
o desiderato rumo dessa casa feita
linha errada em cada chão, o não
estarmos à roda desfibrada, a estrema
linha do mar que nos fareja, o vão
distúrbio funcional, minha malignidade
espectro desse estado quando morto
vagueia entre nós a nos aterrorizar
humores, forma aquosa, vítrea,
cristalina capa de estampadas letras
eras de superfície, punção, gata morta
costurada no leva e traz das ondas da maré
marco divisório de teus passos
 
(Bournemouth, UK, 19 de agosto de 2007)
 

segunda-feira, 30 de junho de 2014

mas pressinto seu passar

mas pressinto  seu passar
      oh vozes, oh visões verdade
      que deste presente passado
      não me deixam esquecer  
      que tamanha crueldade
      comigo fazes então
      não me deixas esquecer
      que de tortura me aparecem
      falando-me ternamente
      repassado tais cenas
      de que tanto estou afastado

me entristecem apenas

 me entristecem apenas
      tuas esmaecidas cenas
      relâmpados do que já foi
      isso não tem mais valor
      que não seja fazer crer
      que valeu a pena tal dor...
      mas meu Deus tanta gente
      por esta cena passou
      tanta gente morreu
      quantos mortos quantos
      no esquecimento cimento
      da pele fria, mas quantos
      de repente me vejo os mortos
      em meus olhos desfilar
      e os que estão vivos ainda

Cuidado, oh cuidado!

Cuidado, oh cuidado!
      De que maldito arquivo
      tais falas fazem ser?
      Por que não me deixam no alívio
      aquelas cenas esquecer
      para que servem essas visitas
      e aquelas tristes vistas
      as sedas que vestem o corpo
      morto, e as ressecadas toalhas
      os castiçais tão deveras
      os mortos rostos rever
      oh vozes que ouvi no passado
    

passantes falantes viventes

passantes falantes viventes
      foram estas vozes passadas
      por refazer as imagens
      de onde vens e para quê?
      por que levantar o depósito
      do que mantido devera ser
      do que ouvir de novo, porquê?
 

Vozes que ouvi no passado

      Vozes que ouvi no passado
      falando-me ternamente
      repassam-me tais coisas
      de que estou afastado
      que perdido no passado
      sem pátria nem tino
      sem que do breve e do lento
      momentâneo acontecer
 

Não posso reter os teus traços

Não posso reter os teus traços
Nem as notas de teu tema
Pois tua música se desvanece
Como as vozes do poema
Da paixão, que mais um traço
Foi do azul de minha pena,
E quando eu te vir já será garço
Repique fraco a tua cena
O afastado abraço
oriunda onda a que cerca de aço
Me levarão essas algemas?


que quando entrei do patamar no espaço

que quando entrei do patamar no espaço
no comando gritavam pulsações de alarme
e o repuxo das terras punham plácidas tábuas
esboroado o farol a ímpeto último.
e coloridas voavam no patamar da estupa
bandeiras de rezas estandartes de graças
e era quando ali recebíamos forças
do aro de metal tão plano quanto aço.
mas do mormaço apareciam taças
bye-rung kha-shor amorosa puro néctar túmido
no fomento do som de trompas que sobre o azul colore
levadas a pulso poderosas e em bando.
ó grande tarde de Padmasambhava
ó grande área aquela de palácio!
rufam tambores encastelados deuses
refregas rumores talássicas ameaças
de Mahakhalas de khatvangas de espadas!
 
quem me deram estar de volta em poema
e lá não me perder no azul do céu da cena
 
 

eu não tenho um grande amor

  eu não tenho um grande amor
      mas há quem o tenha
      ( por isso me alegro)
      
       a jovem olhava  perto o amigo
      que sorria, embevecido
      e a tarde morria
      
       as alegres garotas  entravam no parque
      a cantar  na praça vermelha
      algumas cândidas e jovens
      os velhos casais cansados
      na calçada do Pacificador
       ainda guardavam as relíquias
      as alegrias finas
      eu não tenho um grande amor
      mas há quem os tenha
      e por isso me alegro
      e em júbilo canto
                                 21/12/98


ó terra de belos poemas

(quadro de r. samuel)

 ó terra de belos poemas
      te vejo nos finos trilhos
      o amor passou por aqui
       amados esquecidos na gare
      a aliança dessas terras
       que faremos nós?
      do fundo de tuas filhas
      nas orientais de olhos sagazes
      eu quero teu belo bolero
      a tua cinta e camisa
      ó bicicletas acrobáticas
      o teu relógio
       marca na floresta negra
      teu passo e tua rede
      não passará
                                 Walldofer, 1998


De minha avó Edília

De minha avó Edília
      herdei, que o Conselheiro
      tinha por lá sua razão
      ela uma Araújo
      ele um Maciel
      ambos que de Sobral
      de inimigas famílias.
      E um certo Cap. Galdino
      temido ser meu avô
      naquelas terras amaras.
      Ó passado inexplicável
      Ó tão longínquo destino
      de minha avó, minha sina
      herdei o porte fidalgo
      de minha raiz nordestina.

O amor nos põe a andar

O amor nos põe a andar
      diz Lao-Tsé, o sábio.
      Mas o amor anda  em busca
      de seu amor seu desejo
      o amor, que põe a andar
      não na estrada, na estrela
       mas no desconhecido
      pois que ninguém o ama
      ou esquece
      em busca de sua sina

NO QUINTO DE SEUS POEMAS





No quinto de seus poemas
      Lao-Tsé nos ensina
      a Universal referência
      de todas as coisas iguais.
      Assim é o Universo
      cheio de poder e vazio
      como o sol fole da forja
      o vento da tempestade
      o vão entre as estrelas
      as flores da madrugada
      um Universo  imenso
       movido por seu silêncio